quarta-feira, 1 de abril de 2015

QUARESMA - 2º DOMINGO


No 2º Domingo do Tempo da Quaresma a Palavra de Deus define o caminho que o verdadeiro discípulo deve seguir para chegar à vida nova: é o caminho da escuta atenta de Deus e dos seus projetos, o caminho da obediência total e radical aos planos do Pai.

O Evangelho relata a transfiguração de Jesus. Recorrendo a elementos simbólicos do Antigo Testamento, é apresentada uma catequese sobre Jesus, o Filho amado de Deus, que vai concretizar o seu projeto libertador em favor dos homens através do dom da vida. Aos discípulos, desanimados e assustados, Jesus diz: o caminho do dom da vida não conduz ao fracasso, mas à vida plena e definitiva. Segui-o, vós também.

Literariamente, a narração da transfiguração é uma teofania – quer dizer, uma manifestação de Deus. Os sinais tais como: o monte, a voz do céu, as aparições, as vestes brilhantes, a nuvem e mesmo o medo e a perturbação daqueles que presenciam o encontro com o divino são elementos evidentes de uma teofania. Não estamos diante de um relato fotográfico de acontecimentos, mas de uma catequese, destinada a ensinar que Jesus é o Filho amado de Deus, que traz aos homens um projeto que vem de Deus.

O monte situa-nos num contexto de revelação: é sempre num monte que Deus Se revela; e, em especial, é no cimo de um monte que Ele faz uma aliança com o seu Povo.

A mudança do rosto e as vestes brilhantes, muitíssimo brancas, recordam o resplendor de Moisés, ao descer do Sinai, depois de se encontrar com Deus e de ter as tábuas da Lei.

A nuvem, por sua vez, indica a presença de Deus: era na nuvem que Deus manifestava a sua presença, quando conduzia o seu Povo através do deserto.

Moisés e Elias representam a Lei e os Profetas (que anunciam Jesus e que permitem entender Jesus); além disso, são personagens que, de acordo com a catequese judaica, deviam aparecer no “dia do Senhor”, quando se manifestasse a salvação definitiva.

O temor e a perturbação dos discípulos são a reação lógica de qualquer homem ou mulher, diante da manifestação da grandeza, da onipotência e da majestade de Deus.

As tendas parecem aludir à “festa das tendas”, em que se celebrava o tempo do êxodo, quando o Povo de Deus habitou em “tendas”, no deserto.

A mensagem fundamental pretende dizer quem é Jesus, que Ele é o Filho amado de Deus, em quem se manifesta a glória do Pai. Ele é, também, esse Messias libertador e salvador esperado por Israel, anunciado pela Lei (Moisés) e pelos Profetas (Elias).

Mais ainda: Ele é um novo Moisés – isto é, Aquele através de quem o próprio Deus dá ao seu Povo a nova lei e através de quem Deus propõe aos homens uma nova Aliança.

Da ação libertadora de Jesus, o novo Moisés, irá nascer um novo Povo de Deus. Com esse novo Povo, Deus vai fazer uma nova Aliança; e vai percorrer com ele os caminhos da história, conduzindo-o através do “deserto” que leva da escravidão à liberdade.

Meus amigos, a questão fundamental expressa no episódio da transfiguração está na revelação de Jesus como o Filho amado de Deus, que vai concretizar o projeto salvador e libertador do Pai em favor dos homens através do dom da vida, da entrega total de Si próprio por amor.

Pela transfiguração de Jesus, Deus demonstra que uma existência feita dom não é fracassada – mesmo se termina na cruz. A vida plena e definitiva espera, no final do caminho, todos aqueles que, como Jesus, forem capazes de pôr a sua vida ao serviço dos irmãos.

É fato que por vezes somos tentados pelo desânimo, porque não percebemos o alcance dos esquemas de Deus; ou então, parece que, seguindo a lógica de Deus, seremos sempre perdedores e fracassados, que nunca integraremos a elite dos senhores do mundo e que nunca chegaremos a conquistar o reconhecimento daqueles que caminham ao nosso lado…

A transfiguração de Jesus grita-nos, do alto daquele monte: não desanimeis, pois a lógica de Deus não conduz ao fracasso, mas à ressurreição, à vida definitiva, à felicidade sem fim.

Ser seguidor de Jesus muitas vezes requer o "nadar contra a corrente". A religião não é um ópio que nos adormece, mas um compromisso com Deus, que se faz compromisso de amor com o mundo e com os homens.
Brasília 27 de fevereiro de 2015.


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

QUARESMA 2015

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO
PARA A QUARESMA DE 2015
Fortalecei os vossos corações (Tg 5, 8)

Amados irmãos e irmãs,

Tempo de renovação para a Igreja, para as comunidades e para cada um dos fiéis, a Quaresma é sobretudo um «tempo favorável» de graça (cf. 2 Cor 6, 2). Deus nada nos pede, que antes não no-lo tenha dado: «Nós amamos, porque Ele nos amou primeiro» (1 Jo 4, 19). Ele não nos olha com indiferença; pelo contrário, tem a peito cada um de nós, conhece-nos pelo nome, cuida de nós e vai à nossa procura, quando O deixamos. Interessa-Se por cada um de nós; o seu amor impede-Lhe de ficar indiferente perante aquilo que nos acontece. Coisa diversa se passa connosco! Quando estamos bem e comodamente instalados, esquecemo-nos certamente dos outros (isto, Deus Pai nunca o faz!), não nos interessam os seus problemas, nem as tribulações e injustiças que sofrem; e, assim, o nosso coração cai na indiferença: encontrando-me relativamente bem e confortável, esqueço-me dos que não estão bem! Hoje, esta atitude egoísta de indiferença atingiu uma dimensão mundial tal que podemos falar de uma globalização da indiferença. Trata-se de um mal-estar que temos obrigação, como cristãos, de enfrentar.

Quando o povo de Deus se converte ao seu amor, encontra resposta para as questões que a história continuamente nos coloca. E um dos desafios mais urgentes, sobre o qual me quero deter nesta Mensagem, é o da globalização da indiferença.

Dado que a indiferença para com o próximo e para com Deus é uma tentação real também para nós, cristãos, temos necessidade de ouvir, em cada Quaresma, o brado dos profetas que levantam a voz para nos despertar.

A Deus não Lhe é indiferente o mundo, mas ama-o até ao ponto de entregar o seu Filho pela salvação de todo o homem. Na encarnação, na vida terrena, na morte e ressurreição do Filho de Deus, abre-se definitivamente a porta entre Deus e o homem, entre o Céu e a terra. E a Igreja é como a mão que mantém aberta esta porta, por meio da proclamação da Palavra, da celebração dos Sacramentos, do testemunho da fé que se torna eficaz pelo amor (cf. Gl 5, 6). O mundo, porém, tende a fechar-se em si mesmo e a fechar a referida porta através da qual Deus entra no mundo e o mundo n'Ele. Sendo assim, a mão, que é a Igreja, não deve jamais surpreender-se, se se vir rejeitada, esmagada e ferida.

Por isso, o povo de Deus tem necessidade de renovação, para não cair na indiferença nem se fechar em si mesmo. Tendo em vista esta renovação, gostaria de vos propor três textos para a vossa meditação.

1. «Se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros» (1 Cor 12, 26): A Igreja.

Com o seu ensinamento e sobretudo com o seu testemunho, a Igreja oferece-nos o amor de Deus, que rompe esta reclusão mortal em nós mesmos que é a indiferença. Mas, só se pode testemunhar algo que antes experimentámos. O cristão é aquele que permite a Deus revesti-lo da sua bondade e misericórdia, revesti-lo de Cristo para se tornar, como Ele, servo de Deus e dos homens. Bem no-lo recorda a liturgia de Quinta-feira Santa com o rito do lava-pés. Pedro não queria que Jesus lhe lavasse os pés, mas depois compreendeu que Jesus não pretendia apenas exemplificar como devemos lavar os pés uns aos outros; este serviço, só o pode fazer quem, primeiro, se deixou lavar os pés por Cristo. Só essa pessoa «tem a haver com Ele» (cf. Jo 13, 8), podendo assim servir o homem.

A Quaresma é um tempo propício para nos deixarmos servir por Cristo e, deste modo, tornarmo-nos como Ele. Verifica-se isto quando ouvimos a Palavra de Deus e recebemos os sacramentos, nomeadamente a Eucaristia. Nesta, tornamo-nos naquilo que recebemos: o corpo de Cristo. Neste corpo, não encontra lugar a tal indiferença que, com tanta frequência, parece apoderar-se dos nossos corações; porque, quem é de Cristo, pertence a um único corpo e, n'Ele, um não olha com indiferença o outro. «Assim, se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros; se um membro é honrado, todos os membros participam da sua alegria» (1 Cor 12, 26).

A Igreja é communio sanctorum, não só porque, nela, tomam parte os Santos mas também porque é comunhão de coisas santas: o amor de Deus, que nos foi revelado em Cristo, e todos os seus dons; e, entre estes, há que incluir também a resposta de quantos se deixam alcançar por tal amor. Nesta comunhão dos Santos e nesta participação nas coisas santas, aquilo que cada um possui, não o reserva só para si, mas tudo é para todos. E, dado que estamos interligados em Deus, podemos fazer algo mesmo pelos que estão longe, por aqueles que não poderíamos jamais, com as nossas simples forças, alcançar: rezamos com eles e por eles a Deus, para que todos nos abramos à sua obra de salvação.

2. «Onde está o teu irmão?» (Gn 4, 9): As paróquias e as comunidades

Tudo o que se disse a propósito da Igreja universal é necessário agora traduzi-lo na vida das paróquias e comunidades. Nestas realidades eclesiais, consegue-se porventura experimentar que fazemos parte de um único corpo? Um corpo que, simultaneamente, recebe e partilha aquilo que Deus nos quer dar? Um corpo que conhece e cuida dos seus membros mais frágeis, pobres e pequeninos? Ou refugiamo-nos num amor universal pronto a comprometer-se lá longe no mundo, mas que esquece o Lázaro sentado à sua porta fechada (cf. Lc 16, 19-31)?

Para receber e fazer frutificar plenamente aquilo que Deus nos dá, deve-se ultrapassar as fronteiras da Igreja visível em duas direções.

Em primeiro lugar, unindo-nos à Igreja do Céu na oração. Quando a Igreja terrena reza, instaura-se reciprocamente uma comunhão de serviços e bens que chega até à presença de Deus. Juntamente com os Santos, que encontraram a sua plenitude em Deus, fazemos parte daquela comunhão onde a indiferença é vencida pelo amor. A Igreja do Céu não é triunfante, porque deixou para trás as tribulações do mundo e usufrui sozinha do gozo eterno; antes pelo contrário, pois aos Santos é concedido já contemplar e rejubilar com o facto de terem vencido definitivamente a indiferença, a dureza de coração e o ódio, graças à morte e ressurreição de Jesus. E, enquanto esta vitória do amor não impregnar todo o mundo, os Santos caminham connosco, que ainda somos peregrinos. Convicta de que a alegria no Céu pela vitória do amor crucificado não é plena enquanto houver, na terra, um só homem que sofra e gema, escrevia Santa Teresa de Lisieux, doutora da Igreja: «Muito espero não ficar inactiva no Céu; o meu desejo é continuar a trabalhar pela Igreja e pelas almas» (Carta 254, de 14 de Julho de 1897).

Também nós participamos dos méritos e da alegria dos Santos e eles tomam parte na nossa luta e no nosso desejo de paz e reconciliação. Para nós, a sua alegria pela vitória de Cristo ressuscitado é origem de força para superar tantas formas de indiferença e dureza de coração.

Em segundo lugar, cada comunidade cristã é chamada a atravessar o limiar que a põe em relação com a sociedade circundante, com os pobres e com os incrédulos. A Igreja é, por sua natureza, missionária, não fechada em si mesma, mas enviada a todos os homens.

Esta missão é o paciente testemunho d'Aquele que quer conduzir ao Pai toda a realidade e todo o homem. A missão é aquilo que o amor não pode calar. A Igreja segue Jesus Cristo pela estrada que a conduz a cada homem, até aos confins da terra (cf. Act 1, 8). Assim podemos ver, no nosso próximo, o irmão e a irmã pelos quais Cristo morreu e ressuscitou. Tudo aquilo que recebemos, recebemo-lo também para eles. E, vice-versa, tudo o que estes irmãos possuem é um dom para a Igreja e para a humanidade inteira.

Amados irmãos e irmãs, como desejo que os lugares onde a Igreja se manifesta, particularmente as nossas paróquias e as nossas comunidades, se tornem ilhas de misericórdia no meio do mar da indiferença!

3. «Fortalecei os vossos corações» (Tg 5, 8): Cada um dos fiéis

Também como indivíduos temos a tentação da indiferença. Estamos saturados de notícias e imagens impressionantes que nos relatam o sofrimento humano, sentindo ao mesmo tempo toda a nossa incapacidade de intervir. Que fazer para não nos deixarmos absorver por esta espiral de terror e impotência?

Em primeiro lugar, podemos rezar na comunhão da Igreja terrena e celeste. Não subestimemos a força da oração de muitos! A iniciativa 24 horas para o Senhor, que espero se celebre em toda a Igreja – mesmo a nível diocesano – nos dias 13 e 14 de Março, pretende dar expressão a esta necessidade da oração.

Em segundo lugar, podemos levar ajuda, com gestos de caridade, tanto a quem vive próximo de nós como a quem está longe, graças aos inúmeros organismos caritativos da Igreja. A Quaresma é um tempo propício para mostrar este interesse pelo outro, através de um sinal – mesmo pequeno, mas concreto – da nossa participação na humanidade que temos em comum.

E, em terceiro lugar, o sofrimento do próximo constitui um apelo à conversão, porque a necessidade do irmão recorda-me a fragilidade da minha vida, a minha dependência de Deus e dos irmãos. Se humildemente pedirmos a graça de Deus e aceitarmos os limites das nossas possibilidades, então confiaremos nas possibilidades infinitas que tem de reserva o amor de Deus. E poderemos resistir à tentação diabólica que nos leva a crer que podemos salvar-nos e salvar o mundo sozinhos.

Para superar a indiferença e as nossas pretensões de omnipotência, gostaria de pedir a todos para viverem este tempo de Quaresma como um percurso de formação do coração, a que nos convidava Bento XVI (Carta enc. Deus caritas est, 31). Ter um coração misericordioso não significa ter um coração débil. Quem quer ser misericordioso precisa de um coração forte, firme, fechado ao tentador mas aberto a Deus; um coração que se deixe impregnar pelo Espírito e levar pelos caminhos do amor que conduzem aos irmãos e irmãs; no fundo, um coração pobre, isto é, que conhece as suas limitações e se gasta pelo outro.

Por isso, amados irmãos e irmãs, nesta Quaresma desejo rezar convosco a Cristo: «Fac cor nostrum secundum cor tuum – Fazei o nosso coração semelhante ao vosso» (Súplica das Ladainhas ao Sagrado Coração de Jesus). Teremos assim um coração forte e misericordioso, vigilante e generoso, que não se deixa fechar em si mesmo nem cai na vertigem da globalização da indiferença.

Com estes votos, asseguro a minha oração por cada crente e cada comunidade eclesial para que percorram, frutuosamente, o itinerário quaresmal, enquanto, por minha vez, vos peço que rezeis por mim. Que o Senhor vos abençoe e Nossa Senhora vos guarde!

Vaticano, Festa de São Francisco de Assis, 4 de Outubro de 2014.
Francisco

Disponível em: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/events/event.dir.html/content/vaticanevents/pt/2015/1/27/messaggioquaresima.html


segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

ADVENTO: 4º Domingo

  
No primeiro domingo do mês de dezembro dá-se o Tempo do Advento. Advento quer dizer aquilo que vem vindo, que vai chegar. Por isto, antes de chegar o Natal, há o tempo do Advento. São exatamente quatro semanas, durante as quais se espera o nascimento de Jesus. Esse tempo, ou seja, durante essas quatro semanas, devemos nos preparar, pois é um tempo dedicado à reflexão e preparação para a chegada do Senhor Jesus.

Conforme os três últimos textos postados neste blog, já nos preparamos da seguinte maneira:

Na primeira semana do Advento

Começamos a nos preparar para a chegada do Menino Jesus. Era preciso ver se tudo estava em ordem para recebê-lo. Fizemos uma revisão de vida, de nossos atos... Como temos vivido? Procuramos a paz, ser promotores da paz entre as pessoas, nossos irmãos e amigos? Temos seguido ou, ao menos, tentado seguir os ensinamentos de Jesus? Temos desempenhado nossa missão de discípulos missionários? Temos sido um pai ou mãe cuidadosos, levado nossos filhos à Igreja?

Na segunda semana do Advento

Conversamos com nossos amigos, nossos familiares, nossos colegas de trabalho sobre a chegada do Menino Jesus e os ajudamos, também, a se prepararem...

Na terceira semana do Advento

Faltando pouco para Jesus nascer, pudemos, juntamente com nossos amigos e familiares, formar um grupo e procurar falar da chegada do Menino Deus a outras pessoas, inclusive às crianças. Foi uma ótima oportunidade para evangelizar, pois talvez essas pessoas, essas crianças, esses jovens e adolescentes não estivessem se preparando muito bem para o Natal...

Na quarta semana do Advento

O grande dia se aproxima... o dia que Jesus vai chegar! Então, vamos aguardá-lo com muita alegria, com entusiasmo, com amor no coração, assim como fizeram os pais de Jesus, Maria e José. Portanto, a nossa reflexão será, agora, sobre o 4º Domingo do Advento.

No evangelho do quarto domingo do Advento - Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 1,26-38) - 4º Domingo do Advento – a liturgia refere-se repetidamente ao projeto de vida plena e de salvação definitiva que Deus tem para nos oferecer e que torna-se uma realidade concreta, tangível e plena quando aceitamos dizer “sim” ao projeto de Deus, qual seja, acolher Jesus e apresentá-lo ao mundo.

Preste atenção à mensagem desse Evangelho:

Naquele tempo, o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José. O nome da Virgem era Maria. Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: "Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo;bendita és tu entre as mulheres". Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. Disse-lhe o Anjo: "Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David; e o seu reinado não terá fim". Maria disse ao Anjo: "Como será isto, se eu não conheço homem?" O Anjo respondeu-lhe: "O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice porque a Deus nada é impossível". Maria disse então: "Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra".

Após a leitura atenta desse evangelho, o que mais nos chama a atenção? Três aspectos merecem destaque:

1- a fé de Maria;
2- o conteúdo da mensagem; e
3- a obediência de Maria.

Fé de Maria
Maria não questiona a vontade de Deus transmitida pelo anjo, com as palavras transmitidas pelo anjo, embora tenha ficado"perturbada", pois era muito jovenzinha, uma menina, a bem da verdade. Ela confiou na vontade de Deus, embora não entendesse muito bem a sua missão de ter sido escolhida para ser a Mãe do Salvador!

Conteúdo da mensagem
A mensagem "Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David;  o seu reinado não terá fim" expressa o dom da maternidade de Maria. Maria recebeu o dom da divina maternidade porque teve fé e pela fé se torna a mulher mais abençoada, mais agraciada de todas! O nascimento de Jesus - o Salvador - é obra da intervenção de Deus, pois Maria concebe sem conhecer homem algum.

Obediência de Maria
A obediência de Maria expressa na mensagem: "Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”. Maria recebeu o dom da divina maternidade porque teve fé! Ela confiou em Deus e deu o seu "sim"! Aparentemente, palavra tão simples, humilde, mas que irá marcar o destino da humanidade para sempre.

Conforme explicação no nº 494 do Catecismo da Igreja Católica, dando à Palavra de Deus o seu consentimento, Maria tornou-se Mãe de Jesus e, abraçando de todo o coração, sem que nenhum pecado a retivesse, a vontade divina de salvação, entregou-se ela mesma totalmente à pessoa e à obra de seu Filho, para servir, na dependência dele e com Ele, pela graça de Deus, ao Mistério da Redenção.

Como se vê, temos muito que aprender com a fé e a obediência de Maria, a "Maria do Sim", que nos ensina a viver e a dar nosso "sim" a Deus.

Por isto podemos afirmar que Maria participa da salvação do mundo! Ela verdadeiramente coopera para a salvação humana com livre fé e obediência. Pronunciou seu "fiat" (faça-se) em representação de toda a natureza humana. Por sua obediência, tornou-se a nova Eva, Mãe do viventes (Catecismo da Igreja Católica, nº 511). Maria, a Virgem escolhida por Deus para ser a Mãe de seu Filho, é verdadeiramente "Mãe de Deus", pois é a Mãe do Filho Eterno de Deus feito homem, que é Ele mesmo Deus. É através de Maria que Deus atua no mundo, na humanidade, é através de homens e de mulheres atentos aos projetos de Deus que Ele atua no mundo, que manifesta seu amor, que se torna presente no mundo.

É preciso que estejamos atentos ao chamado de Deus para que possamos dar o nosso "sim" total e incondicional, particularmente aos pobres, aos humildes, aos infelizes, aos marginalizados – a salvação e a vida de Deus. Digamos, com fé, Virgem Maria, rogai por nós!

Para finalizar, façamos a Oração do Advento, bem simples:

“Eu o espero, Jesus. Venha logo!
Você nasceu em Belém e foi um menino, como eu fui.
Mas eu sei que você é o Filho de Deus, que veio do céu.
Traga então a sua paz e a sua amizade para o meu coração, que o espera impacientemente.
E também para o coração de todos os homens.
Ensine a eles o caminho que leva à gruta de Jesus
e faça com que todos se sintam irmãos.
Amém”.

Brasília, 19 de dezembro de 2014.
Maria Auxiliadôra

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

ADVENTO: 3º Domingo



O evangelho do próximo domingo - Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Joao (Jo 1,6-8.19-28) - 3º Domingo do Advento – apresenta-nos João Batista, a “voz” que prepara os homens para acolher Jesus, a “luz” do mundo.

O singular objetivo de João Batista é centrar o foco na pessoa de Jesus. João não centra o foco em si mesmo, ele está apenas interessado em levar os seus interlocutores a acolher e a “conhecer” Jesus, “aquele” que o Pai enviou com uma proposta de vida definitiva e de liberdade plena para os homens.

O evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 1,6-8.19-28) traz o seguinte texto:

Apareceu um homem enviado por Deus, chamado João. Veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos acreditassem por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz. Foi este o testemunho de João, quando os judeus lhe enviaram, de Jerusalém, sacerdotes e levitas, para lhe perguntarem: «Quem és tu?» Ele confessou a verdade e não negou; ele confessou: «Eu não sou o Messias». Eles perguntaram-lhe: «Então, quem és tu? És Elias?» «Não sou», respondeu ele. «És o Profeta?». Ele respondeu: «Não». Disseram-lhe então: «Quem és tu? Para podermos dar uma resposta àqueles que nos enviaram, que dizes de ti mesmo?» Ele declarou: «Eu sou a voz do que clama no deserto: ‘Endireitai o caminho do Senhor’, como disse o profeta Isaías». Entre os enviados havia fariseus que lhe perguntaram: «Então, porque batizas, se não és o Messias, nem Elias, nem o Profeta?» João respondeu-lhes: «Eu batizo em água, mas no meio de vós está Alguém que não conheceis: Aquele que vem depois de mim, a quem eu não sou digno de desatar a correia das sandálias». Tudo isto se passou em Betânia, além Jordão, onde João estava a batizar.

O autor do Quarto Evangelho – João Batista - procura dizer quem é Jesus e define a sua missão. João Batista dá testemunho sobre Jesus diante dos enviados das autoridades judaicas. Naquela época, o Povo de Deus vivia na expectativa da chegada do Messias libertador, enviado por Deus para inaugurar uma nova era de liberdade, de alegria, de felicidade. Deus escolheu João, cuja missão é dar testemunho da “luz”. A “luz” representa a realidade que vem de Deus e com a qual Deus se propõe construir para os homens um mundo novo de vida definitiva e de felicidade total. João não atua por sua própria iniciativa, mas em resposta à escolha divina e para concretizar uma missão que Deus lhe confiou.

João foi enviado por Deus, mas João não é “a luz”! Ele é apenas “a testemunha” que vem preparar os homens para acolher Aquele que vai chegar e que será “a luz/vida”. João não é o Messias, nem Elias, nem se declara “o profeta” e nem aceita que lhe atribuam nenhuma função que possa centrar a atenção na sua própria pessoa. As suas três respostas, conforme se lê no evangelho, são rotundas negativas. Ele não busca a sua glória ou a sua afirmação, nem vem em seu próprio nome; a sua missão é meramente dar testemunho da “luz” e é para essa “luz” que os holofotes devem ser apontados.

João declarou: “Eu sou a voz do que clama no deserto: ‘Endireitai o caminho do Senhor’”. A “voz”, através da qual Deus fala, convida-nos a endireitar “o caminho do Senhor”. A “voz” não tem rosto, é anônima e passa despercebida; o importante é o conteúdo da mensagem. É isso que João é: uma “voz” através da qual Deus passa aos homens uma mensagem. É à mensagem e não à “voz” que os homens devem dar atenção. E qual é a mensagem? A mensagem é: endireitai o caminho do Senhor.

E João afirma: “Eu batizo em água, mas no meio de vós está Alguém que não conheceis: Aquele que vem depois de mim, a quem eu não sou digno de desatar a correia das sandálias”.

O batismo ou imersão na água, que João se refere, era um símbolo frequente no judaísmo, usado como rito de purificação ou para significar a mudança de estado de vida.

Portanto, o batismo de João significava a ruptura com a vida das trevas e o desejo de aderir a uma nova vida. Implica abandonar a mentira, os comportamentos egoístas, as atitudes injustas, os gestos de violência, os preconceitos, a instalação, o comodismo, a auto-suficiência, tudo o que nos torna escravos e nos impede de chegar à verdadeira felicidade.

Assim, o batismo referido por João seria apenas um primeiro passo para acolher “a luz” – a”luz” que vai libertar o homem da escuridão, da cegueira, da mentira, do egoísmo, do pecado.

E quais são as mudanças que nós temos de operar na nossa existência para passar das “trevas” para a “luz”? O que é que nos escraviza e nos impede de ser plenamente felizes? O que é que na nossa vida gera desilusão, frustração, desencanto, sofrimento?

Ademais, é o batismo do Messias (o batismo no Espírito) que transforma totalmente os nossos corações e nos faz livres e nos dá a vida definitiva. Esse que vem batizar no Espírito já está presente, a fim de iniciar a sua obra libertadora. É o Messias Libertador, pois só Ele é “a luz” e só Ele tem uma proposta de vida verdadeira para nos apresentar. Só Jesus é “a luz” que liberta-nos da escravidão, da escuridão, das trevas e nos oferece a vida verdadeira e definitiva.

Jesus marca, realmente, a nossa existência? Quando celebramos o nascimento de Jesus, celebramos um acontecimento do passado que deixou a sua marca na história? Ou celebramos o encontro com alguém que é “a luz” que ilumina a nossa existência e que enche a nossa vida de paz, de alegria, de liberdade?

Como se vê, neste Evangelho João nos convida a pensar sobre a forma de Deus atuar na história humana e sobre as responsabilidades que Deus nos atribui na recriação do mundo…

Deus vem ao nosso encontro para nos envolver no seu amor através de pessoas concretas, com um nome e uma história, pessoas “normais” a quem Deus chama e a quem confia determinada missão.

A todos nós, seus filhos, Deus confia uma missão no mundo – a missão de dar testemunho da “luz” e de tornar presente, para os nossos irmãos, a proposta libertadora de Jesus.

É chegada a hora de nos prepararmos para o grande acontecimento que está por vir: o nascimento de Jesus, Aquele que é a “luz” que vai nos libertar da escravidão e das trevas e nos oferece a vida verdadeira e definitiva.

Brasília, 12 de dezembro de 2014.
Maria Auxiliadôra

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

ADVENTO: 2º Domingo


No evangelho do próximo domingo - Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos ( Mc 1,1-8) - 2º Domingo do Advento - há um forte apelo ao reencontro do homem com Deus, à conversão. Deus está sempre disposto a oferecer ao homem um mundo novo de liberdade, de justiça e de paz; mas esse mundo só se tornará uma realidade quando o homem se dispuser a uma mudança, mudança de atitude, de pensamento, uma profunda reforma em seu coração, abrindo-o aos valores de Deus.


No Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus. Está escrito no profeta Isaías: "Vou enviar à tua frente o meu mensageiro, que preparará o teu caminho. Uma voz clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas’". Apareceu João Batista no deserto a proclamar um batismo de penitência para remissão dos pecados. Acorria a ele toda a gente da região da Judeia e todos os habitantes de Jerusalém e eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados. João vestia-se de pelos de camelo, com um cinto de cabedal em volta dos rins, e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre. E, na sua pregação, dizia: "Vai chegar depois de mim quem é mais forte do que eu, diante do qual eu não sou digno de me inclinar para desatar as correias das suas sandálias. Eu batizo-vos na água, mas Ele batizar-vos-á no Espírito Santo".


Como se vê, esse evangelho traz a missão de João Batista, a sua pregação, a reação dos ouvintes, o seu estilo de vida e o testemunho de João sobre Jesus. Então, para uma melhor reflexão, vou fazer alguns questionamentos:

1) Quem é João Batista e qual é a sua missão?
Conforme narrado no texto, João Batista é o “mensageiro” que prepara o caminho para o “Messias”, “Filho de Deus” (Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas’).


2) Em que consistia a pregação de João?
João Batista apareceu no deserto a proclamar um batismo de penitência para remissão dos pecados.


3) Por que ou para quê?
De acordo com a catequese judaica, o Messias só chegaria quando Israel fosse, na verdade, a comunidade santa de Deus… Antes de o Messias chegar, o Povo devia, portanto, realizar um caminho de purificação e de conversão, de forma a tornar-se um Povo santo. O “batismo de penitência” , ou seja, “batismo de conversão”  ou de “metanoia”, proposto por João Batista deve ser entendido neste contexto e representa um convite à mudança radical de vida, de comportamento, de mentalidade.


4) O que era o batismo proposto por João?
Este “batismo” é um rito de iniciação à comunidade messiânica: quem aceitava este “batismo” passava a viver uma vida nova e aceitava integrar a comunidade do Messias.

5) E por qual razão a pregação de João é feita no deserto?
O “deserto” é, no contexto da catequese judaica, o lugar onde o Povo de Deus realizou uma caminhada de purificação e de conversão. Foi no deserto que os israelitas libertados do Egito passaram de uma mentalidade de escravos a uma mentalidade de homens livres, de uma mentalidade de egoísmo a uma mentalidade de partilha, de uma atitude descomprometida a uma Aliança com Jahwéh, da desconfiança em relação à proposta libertadora que Moisés lhes apresentou à confiança total num Deus que cumpre as suas promessas e que é fonte de vida e de liberdade para o seu Povo. A pregação de João lembrava aos israelitas a necessidade de voltar ao “deserto” e de percorrer um caminho semelhante àquele que os antepassados tinham percorrido.


6) Como é que os interlocutores de João reagiam às suas propostas?
Conforme o texto, acorria a ele muitas pessoas da região da Judeia e todos os habitantes de Jerusalém para serem batizados, confessando os seus pecados.


7) Qual era o estilo de vida de João?
João vestia-se de pêlos de camelo, com um cinto de cabedal em volta dos rins e alimentava-se de gafanhotos e de mel silvestre. Seu estilo de vida era sóbrio, desprendido, austero, simples – é um convite claro à renúncia aos valores do mundo. O estilo de vida de João corrobora a mensagem que ele apresenta.


8) O que é que João diz sobre esse Messias libertador, do qual ele é o arauto e o mensageiro?
João fala da “força” do Messias e define a sua missão: batizar no Espírito. O Messias terá, portanto, a força de Deus e a sua missão será comunicar esse Espírito de Deus, que transforma, renova e recria os corações dos homens.

Em síntese, João é o mensageiro, enviado por Deus para preparar os homens para a chegada do Messias. A mensagem transmitida por João – com a palavra e com a própria atitude de vida – é um apelo veemente à mudança de vida e de mentalidade, a fim de que a proposta do Messias libertador encontre lugar no coração dos homens. João deixa claro que a missão do Messias é comunicar o Espírito que transforma o homem.

Portanto, na mensagem principal do evangelho, João Batista afirma claramente que preparar a vinda do Messias passa pela “metanoia”, isto é, por uma transformação total do homem, por uma nova atitude de base, por uma outra escala de valores, por uma radical mudança de pensamento, por uma postura vital inteiramente nova, por um movimento radical que leve o homem a reequacionar a sua vida e a colocar Deus no centro da sua existência e dos seus interesses.

Neste tempo de Advento, de preparação para a celebração do Natal do Senhor, somos convidados a fazer uma transformação radical da nossa vida, dos nossos valores, da nossa mentalidade.

Reflita:

- Como é que nós estamos nos preparando?

- Estamos suficientemente atentos aos profetas que questionam o nosso estilo de vida e os nossos valores?


Brasília, 07 de dezembro de 2014.
Maria Auxiliadôra